Minha tão querida L.,
Você ainda não existe para o mundo e ainda não sei ao certo quanto lhe falta para chegar. A minha certeza é que não precisei de nove meses para conceber e parir a idéia de você. Sei que a L. do meu imaginário é apenas um rascunho. A L. obra-de-arte-de-Deus será muito mais divina, com direito a essa redundância.
Por enquanto, o seu formato etéreo me faz imaginá-la entre as estrelas mais distantes; ao mesmo tempo a sinto concreta, como se já no ventre estivesse. Já posso pensar no que será e como será quando nos encontrarmos de fato. Já penso nos primeiros passos, nas segundas palavras, nas terceiras brigas, nas quartas pazes, nas quintas comemorações, nas sextas musicais e no sábado ensolarado. Domingo descanseramos ao luar.
Entendo que você não é só minha. Mas somente meu escudo lhe abrigará e sou egoísta. Por vezes não lembro da colaboração alheia na construção do seu ser. O que não significa que minha gratidão a ele não é eterna - de que outro modo poderia eu usufruir de sua existência? Ao meu lado, o alheio também aproveitará: essa sua maior recompensa.
Imagino você agora, querida L., com as pernas balançando e escutando meus devaneios. Sussurrando no meu ouvido que a pressa não se faz necessária. Você chegará, seja quando for. Está reservada na melhor e mais alta prateleira, onde só eu posso alcançar. Gosto de pensar assim, mas o fato é que é você quem me alcança. Aqui nessa Terra descerá; eu é que não posso subir até você.
L., você é tão maior que eu! Mas seu começo será tão pequeno que caberá nos meus braços. Sua presença já me é tão forte! Mas a fragilidade do seu choro exigirá todos os meus cuidados. E quando finalmente você alcançar meu tamanho, eu é que diminuirei e me aninharei no seu colo, procurando alento na sua experiência jovial.
L., querida, não se demore. Sua própria existência clama por você. E de você, a minha já é dependente.