CRÔNICAS & AGUDAS, por Lorena Suppa


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PRÉ-ESTRÉIA

 

Estréias, que pena, são únicas.

Como o primeiro choro.

O primeiro passo.

O primeiro beijo. 

A primeira dança.

O primeiro amor.

O primeiro filho.

Quem dera eu estreasse todos os dias.

Como se todos os nasceres do sol fossem os primeiros.

Como se todos os fins de tarde fossem únicos.

Como se a lua crescesse sempre nova, toda cheia e nunca minguasse.

Como se houvesse sempre a primeira estrela para o primeiro pedido.

Como se a música do seu "eu te amo" fosse sempre uma surpresa.

Como se andar fosse um exercício consciente.

Como se existisse sempre o primeiro gole mas nunca a gota d'água.

Como se toda onda tivesse um primeiro pulo.

Como se, eternamente, eu afundasse e emergisse nesse oceano que é a vida.

Relembrando o útero e a minha primeira estréia.



- Enviado por: Lorena Suppa às 18h53
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Pré-história

Minha tão querida L.,

Você ainda não existe para o mundo e ainda não sei ao certo quanto lhe falta para chegar. A minha certeza é que não precisei de nove meses para conceber e parir a idéia de você. Sei que a L. do meu imaginário é apenas um rascunho. A L. obra-de-arte-de-Deus será muito mais divina, com direito a essa redundância.

Por enquanto, o seu formato etéreo me faz imaginá-la entre as estrelas mais distantes; ao mesmo tempo a sinto concreta, como se já no ventre estivesse. Já posso pensar no que será e como será quando nos encontrarmos de fato. Já penso nos primeiros passos, nas segundas palavras, nas terceiras brigas, nas quartas pazes, nas quintas comemorações, nas sextas musicais e no sábado ensolarado. Domingo descanseramos ao luar.

Entendo que você não é só minha. Mas somente meu escudo lhe abrigará e sou egoísta. Por vezes não lembro da colaboração alheia na construção do seu ser. O que não significa que minha gratidão a ele não é eterna - de que outro modo poderia eu usufruir de sua existência? Ao meu lado, o alheio também aproveitará: essa sua maior recompensa.

Imagino você agora, querida L., com as pernas balançando e escutando meus devaneios. Sussurrando no meu ouvido que a pressa não se faz necessária. Você chegará, seja quando for. Está reservada na melhor e mais alta prateleira, onde só eu posso alcançar. Gosto de pensar assim, mas o fato é que é você quem me alcança. Aqui nessa Terra descerá; eu é que não posso subir até você.

L., você é tão maior que eu! Mas seu começo será tão pequeno que caberá nos meus braços. Sua presença já me é tão forte! Mas a fragilidade do seu choro exigirá todos os meus cuidados. E quando finalmente você alcançar meu tamanho, eu é que diminuirei e me aninharei no seu colo, procurando alento na sua experiência jovial.

L., querida, não se demore. Sua própria existência clama por você. E de você, a minha já é dependente.



- Enviado por: Lorena Suppa às 13h44
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