CRÔNICAS & AGUDAS, por Lorena Suppa


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Lúcia caminhava até o ponto de ônibus compenetrada, olhos cravados no chão, fazendo mentalmente as contas para o próximo mês. Antes de conseguir subtrair o empréstimo do salário e concluir, infeliz, que não pagaria a conta de telefone, foi interrompida por uma voz baixa e trêmula.

 

- Moça, moça!

 

Levantando lentamente o olhar, sua visão da mulher que a chamou formou-se a partir dos pés, levemente virados para dentro. Percorreu as canelas finas descobertas e chegou à saia rota. Encontrou, mais para cima, um, dois, três botões e parou no quarto, onde acabava a blusa desbotada. O pescoço esguio levou ao rosto magro, fundo e desolado, exposto em demasia pelos cabelos repuxados para trás.

 

- Moça, não se preocupe, não vou pedir dinheiro.

 

Lúcia, parada, nada disse. Apenas encarou por alguns segundos o relógio.

 

- Será que a senhora não poderia comprar leite pra minha filhinha? Nem precisa me dar o dinheiro, eu posso ir com a senhora comprar.

 

A mulher ganhara pontos com Lúcia. Sem dinheiro, sem drogas.

 

- Mas minha filha só toma leite Ninho e não tem naquela padaria ali, mas a gente pode ir em outro lugar pra comprar. Na farmácia custa uns sete reais.

 

Lúcia quase soltou um riso cínico, mas achou errado e ficou só na intenção.

 

- Olha, infelizmente estou atrasada e não tenho esse dinheiro aqui. Mas tenho umas guloseimas comigo. Sua filha já mastiga?

 

- Não, mas tenho mais uma filha. E um menininho. E mais uma menina. E mais um em Goiânia. E mais um… mais um menino.

 

Lúcia abriu a sacola enquanto a mulher inventava filhos e entregou metade dos biscoitos e doces que levaria ao trabalho, para não ficar muito tempo de estômago vazio. Era a primeira vez que tinha conseguido juntar um dinheirinho para esse luxo. A mulher, então, saiu do meio da rua e se aproximou de Lúcia para pegar as coisas, assustada pela buzina e o “folgada!” que ouvira de um carro vermelho.

 

Com olhar de súplica, a mulher levantou a voz:

 

- Mas a senhora não pode comprar o leite? Eu preciso muito, estou desesperada.

 

- Olha, desculpe, mas não posso.

 

O olhar e o tom de voz da mulher mudaram subitamente, mas Lúcia não reparou.

 

- Então a senhora não tem nada aí pra colaborar, qualquer coisa? Hein?”

 

Lúcia abriu a bolsa com cuidado. Sem troco, justificou:

 

- Não tenho nada, desculpe.

 

- Mas moça, como eu vou fazer? Não tem nada mesmo? Nem uma moedinha? E o leite? Eu preciso muito.

 

- Desculpe, desculpe, não tenho mesmo e estou sem tempo. Mas os biscoitos já vão ajudar seus outros filhinhos. Desculpe…

 

- É, mas e o leite? E moedinha, não tem nenhuma mesmo? Hein, moça?

 

Lúcia se desculpou mais algumas vezes, fechou a bolsa e foi para o ponto, perdendo a mulher de vista, mas ainda sentindo a sua pressão. Estava atrasada e o ônibus já passara. Pediu desculpas a si mesma, pediu desculpas a Deus. Condenou-se por não ter entregado todas as guloseimas, por ter desconfiado de quantos filhos tinha a mulher, por ter passado uma noite tão confortável e por poder pagar o empréstimo. Telefone era supérfluo. Pediu desculpas para o patrão pelo atraso (mas ele não perdoou). Deus a perdoaria? A mulher a perdoaria? O patrão a demitiria?

 

E Lúcia? Perdoaria o governo pela pobreza do país? Desculparia a mulher pelo talento da malandragem e PhD de pedinte? Seria recompensada com outras guloseimas? Deixaria de se sentir culpada pela culpa dos outros? Seria extorquida na próxima esquina?

 

Mas essa era Lúcia. Não tinha expertise em dizer “não”. E, muito menos, em culpar as pessoas certas e pedir perdão na hora devida. 



- Enviado por: Lorena Suppa às 11h16
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