
No liqüidificador da vida, a água vem em onda, marola, redemoinho. Sempre líqüida. Nos deixa em estado de ebulição, de fervor, de gelo no vapor. Inunda a sala, o quarto e entra no sapato. Encrespa o cabelo, cola a roupa e faz bolha. Embaça o espelho. Deixa o caminho escorregadio. Sempre líqüida. Carrega o milagre no esperma. Esvai a esperança na menstruação. Destila a tristeza e a alegria incontida na lágrima. Degusta, na saliva, os (dis)sabores da estrada. Expulsa o mal pela urina. Corre a vida pelo sangue. Sempre líqüida.
Não seque a água. Ou tudo estará liqüidado.
As palavras virão...Tossidas, vomitadas, escarradas, espirradas, respingadas. Mas aguardem, elas ainda estão engasgadas. Antes de sufocar, as espalharei pela sala.
Segunda-feira qualquer. Chego atrasado pela primeira vez e meu chefe fica uma arara. Pago um mico danado tendo que ouvir suas broncas na frente daquela secretária abelhuda. Como ela fala como um papagaio, já sei que todos vão saber do atraso. Mas eu já estou acostumado. Meu chefe adora cantar de galo, mas quem trabalha como burro de carga somos nós. Ele não faz nada a não ser viajar com aquela esposa perua, que come feito passarinho porque se acha uma baleia. E quando ela está de mau humor e desconta no marido, quem paga o pato somos nós.
A gente fica nesse trabalho de formiga até meio-dia, quando dá a hora do almoço. Rápido como uma lebre e com uma fome de leão, vou correndo para o refeitório. Lá, todos se reúnem para uma boa fofoca.
Primeiro vem o amigo da onça. Aquele com cara de mosca morta que finge gostar muito de você. É bom a gente sempre ter uma pulga atrás da orelha com esses espíritos de porco. Depois, vem seu colega do primeiro andar, que está afim daquela gata do décimo segundo, assim como você. Ele é esperto como uma raposa, mas com aquele bafo de onça ela, com certeza, não vai querer nada com o rapaz. Quando a moça se aproxima da mesa eu já começo a ficar todo grilado, tento me esconder como um avestruz, mas a única coisa que faço é rir como uma hiena de tudo o que ela fala. É...o horário de almoço me faz sentir um peixe fora d'água.
Volto à minha sala. Pilhas de relatórios para fazer e só tenho idéias de jerico. Ainda fazendo a digestão, trabalho como uma lesma. Então, entra aquela assistente, que mais parece uma saracura e, delicada como um elefante, derruba café nos meus escritos. Viro uma fera e, num acesso de raiva, digo que a anta do meu chefe nem vai perceber a mancha, já que ele é uma mula que fica jiboiando no sol ao invés de ler meus relatórios. Olho para a assistente e peço para que faça boca de siri, senão vai ser despedida. Nervosa, sai da sala praguejando contra mim e, com aquela boca de sapo, é bem capaz de que algo me aconteça no caminho para casa.
Felizmente, ao final do dia, chego ao lar são e salvo. Suado como um porco, vou direto para o chuveiro. De pijamas, ligo a televisão e mais pareço um bicho preguiça: não consigo nem apertar o botão do controle remoto.
O telefone toca. Com passos de tartaruga vou atendê-lo. É minha mãe. Me conta a cachorrada que a tia Nonô fez com ela. "Aquela cobra só apronta"! Conto sobre o meu dia de cão e como boa mãe coruja ela me enche de elogios. Mas ao final da conversa, depois de todas as minhas reclamações, ela pergunta se sou um homem ou um rato. Diz que preciso mudar de vida. E eu apenas constato, conformado: "Mamãe, a vida lá fora é uma selva".