
Na indolência da rotina, o ânimo esmaecido, o itinerário previsto, o despertador tocado.
No clichê da manhã, a cafeína desassossegada, o colarinho com gravata, o vai-com-deus-e-não-demore.
Na atrofia do escritório, a reunião desmarcada, o grampeador quebrado, o chefe tresloucado.
Na enunciação da avenida, o freio nervoso, as rodas engarrafadas, as testas enrugadas.
Na conciliação do bar, os ombros roçantes, o bate-garrafa, as choradeiras alcoólicas.
Na desfaçatez da noite, a angústia comedida, a culpa arrependida, o cansaço distraído.
No axioma do travesseiro, a mente poluída, o corpo derretido, o samba horizontal.
Na incongruência dos sonhos, os nomes trocados, a mecânica desacertada, a alma emancipada.
Na indolência da rotina, o ânimo esmaecido, o itinerário previsto, o despertador tocado.
Eu não me importei quando você deu as costas e foi para o outro cômodo. Eu não me importei quando você pareceu não ouvir meus apelos e fez tudo ali mesmo. Eu não me importei quando correu para a liberdade da rua que meu teto não parecia lhe dar. Eu não me importei quando me feriu com a raiva que não conseguia mais suportar.
Eu não me importei com os constragimentos na frente das visitas. Eu não me importei com as noites mal dormidas por causa daquela sua mania de "barulhar". Eu não me importei com os móveis quebrados nem com meu patrimônio abalado. Eu não me importei com o seu espaço no meu cobertor. Eu não me importei com as minhas posses em sua posse. Eu não me importei com a sua falta de conhecimentos específicos. Eu não me importei com a sua mais alta energia na hora da minha estafa. Eu não me importei com sua chantagem emocional da hora do jantar.
Eu não me importei de não saber mais o que é ser sozinho. Mas chegou esse dia em que olho e não vejo sua presença, apenas o seu não-voltar. Ah, cão amigo, como importa a sua ausência!
Quando te li, te amei. Instantaneamente. Tuas letras passaram a ser a melhor das minhas hipóteses. Teus argumentos, a ênfase dos meus diálogos. Tuas reticências me deram ares de pensar infinito. As interrogações inquietaram as dúvidas adormecidas. As exclamações elevaram a alma achatada pelo peso da existência.
Ah, inspiração que não se cansa! Que passeia por tuas linhas e entrelinhas, tal qual pássaro que se esconde entre as árvores do bosque sombrio. Tu não sabes o que fizeste, certamente. Uma parada nas vírgulas e o retorno é inevitável. A hora, inadiável. O alimento que é a tua palavra tornou-se essencial.
Sentenças de morte. Orações subordinadas dos céus. Eu nasci para outra vida. Dois pontos, atenção. Meu verbo é ler.
A chatice dos rostos deixava claro o que a espera fazia com a sala. Por detrás da porta azul-bebê, o silêncio dos corpos invadidos em exames, análises, biópsias - braços e pernas moles, regados em sedativos, simulando o sono dos justos. Do lado de cá, acompanhantes de pés balançantes miravam o teto como que a filosofar, embora os olhos vazios denunciassem o aborrecimento de não se conseguir pensar em nada.
Sons entediantes e repetitivos por vezes se sobressaíam às respirações: tocava o telefone, batia a sola do sapato no chão, soava estridente a campaínha, viravam-se as folhas das revistas num vlap-vlap incessante. Alguém, então, resolveu abafá-los todos.
A televisão clareou acima das cabeças enfastiadas. Fizeram-se o som, as cores e os movimentos. Abruptamente, os pés pararam de sacolejar, as mãos acalmaram e os olhos atentaram. As faces chatas arredondaram. Era um riso obrigatório que passava na tela em linhas curvas e coloridas. Era animado, o desenho!

Um dia antes do acidente ocorrido com o avião da TAM em São Paulo, eu preparava uma crônica sobre "andar de avião", que hoje (e para sempre) ficou pela metade. Não, não foi premonição, menos ainda clarividência. Nada escrevi sobre tragédias. Eu falava da interessante sensação de andar de avião pela primeira vez. E de como é ainda mais interessante lembrar-se desse momento sem banalizá-lo (pois eu só voei pela primeira vez aos 22 anos).
O que eu ignorava é que a banalização já reinava absoluta: o assunto já era tratado assim-assim pelas autoridades do setor. O que eu não sabia, também, era que a minha ficção jamais produziria cenas que a realidade fez questão de jogar nas nossas caras.
Ironicamente, uma das passagens do meu texto era: "segurando o bilhete como se fosse um filho (afinal, ninguém gostaria de perder o filho no meio do aeroporto, tampouco a passagem)". Que passagem? Foi mais, muito mais: perderam-se filhos, mães, netos, amigos e amores... Perderam-se a dignidade, o respeito e a honestidade, que ficaram jogados pelo caminho, realçados pela poeira negra acima de nossas cabeças -sentimentos estraçalhados por quem deveria tê-los em alta conta.
"Tudo me marcou", escrevi. Sim, no dia seguinte tudo me marcaria. Dramas tocam, sensibilizam, amedontram, mobilizam. Mesmo acreditando que nós brasileiros (aqui me incluo), esquecemos tudo com surpreendente facilidade, ao mesmo tempo creio que essa é uma ferida aberta demais para cicatrizar tão rápido.
"Resolvi prestar mais atenção em tudo" foi a última frase do meu texto. Inacabada, apenas com uma vírgula após a última palavra. Assim como nesse triste episódio, uma vírgula jamais será um ponto final.
Eu não tenho olhos, nem boca, nem pernas. Para você eu sou apenas um vulto, caminhando assim, tranqüilamente, no mundo das idéias de Platão. Eu existo porque sou idéia ou a idéia existe porque eu sou? Você nunca vai saber, nem eu. Porque você, para mim, é a mesma coisa. É essa virtualidade imensa que me faz pensar nessa coisa louca de não ter rosto. Eu lhe desenho e você faz um esboço de mim. É o máximo que alcançaremos. Depois disso, desligamos o transformador e deixamos de existir.
O seu não-mundo é de que cor? Quando eu me despeço de você fica tudo púrpura, parece céu em fim de tarde. O sol vai esquecendo de brilhar e eu de pensar
Mas aí você propõe me conhecer, pede foto ou presença. Não confunda as coisas! Sou etérea e, você, virtual; não entendeu? Já me conhece muito bem, pois sabe o que vai aqui dentro. Da carcaça você nunca precisou. Uma breve descrição eu posso dar, porque sei que você jamais chegará à verdade absoluta. Prefiro que me deixe quietinha no plano da imaginação, pode ser?
Mas deixa essa discussão para amanhã, porque preciso ir. Já gastei energia demais por hoje, se é que você me entende.
Que venha o púrpura!