
Não gosto de escrever sob a influência de palavras alheias. Alguns dirão ser impossível pensar algo e expressá-lo de modo plenamente autônomo. De fato, não há como ignorar a tradição do conhecimento que nos é legado desde os tempos antigos, e mesmo que ainda possamos captar os fenômenos externos com nossos próprios sentidos, precisaremos das palavras para expressá-los - mesmo que precariamente -, e a língua é uma construção coletiva. Mas não tenho a mínima pretensão de fazer aqui um ensaio filosófico sobre isso, uma vez que me faltam capacidade e alguns anos de estrada no campo dessa maravilhosa busca da verdade que é a filosofia.
Quero apenas fazer uma breve introdução a esta crônica, que pede emprestadas as palavras de um poeta para falar sobre a morte, a saudade e o reencontro com a luz. Poderia eu mesmo escrever algumas linhas sobre o tema, mas me considero profundamente influenciado pelas palavras do pe. Fábio de Melo, que expressam, a meu ver, de maneira fiel, a dor daquele que fica, ante a perda do ente querido; as feridas do sofrimento que parecem não cicatrizar; mas simboliza, acima de tudo, um convite à possibilidade de abertura a um tempo eterno que consola e sinaliza. Continuar a escrever me induziria a plagiar as idéias do autor. Reproduzo-as já, pois:
Deixa partir o que não te pertence mais
Deixa seguir o que não poderá voltar
Deixa morrer o que a vida já despediu
Abra a porta do quarto e a janela
Que o possível da vida te espera
Vem depressa que a vida
Precisa continuar
O que foi já não serve é passado
E o futuro ainda está do outro lado
E o presente é o presente
Que o tempo quer te entregar
Fala pra mim, se achares que posso ouvir
Chora ao teu Deus
Se não podes compreender
Rasga este véu do calvário
Que te envolveu
Tão sublime o segredo se esconde
Nesta dor que escurece o horizonte
Que por hora impede
Os teus olhos de contemplarem
O eterno presente no tempo
O ausente presente em segredo
Na sagrada saudade que o deixa continuar
Deixa morrer o que a morte já sepultou
Deixa viver o que dela ressuscitou
Não queiras ter o que ainda não pode ser
É possível crescer nesta hora
Mesmo quando o que amamos
Foi embora
A saudade eterniza a presença
De quem se foi
Com o tempo esta dor se aquieta
Se transforma em silêncio que espera
Pelos braços da vida um dia reencontrar
Letra de Perdas Necessárias (Marcas do Eterno) - Pe. Fábio de Melo, scj
Ouvi um dia dizerem que, na Itália, as sandálias Havaianas custam em torno de 120 reais. E que, claro, somente os ricos as compram, para usá-las em seus passeios e visitas. Como dizem os jovens, é fashion. Também fiquei sabendo que, nos Estados Unidos, os gringos usam sandálias com meias e saem assim, meio esquisitões, numa boa. Vão à praia, tomam sol; ficam como pimentões de canelas brancas. Ao contrários dos escoceses, que ostentam suas canelinhas porque adoram usar saiotes xadrezes chamados kilt.
Com todas essas informações, pensei aqui com os meus botões que sou um cara que nunca inventou moda. Precisaria ser muito criativo e, quase aos cinqüenta, já passei dessa fase. Mas, aí está: estou com quase meio século de vida e nunquinha saí dos padrões. Por isso, quando recebi o convite para aquela festinha de executivos onde o preto sempre cai bem, resolvi inovar.
Quando apareci na festa, todos pararam para me olhar. Percebi a mocinha da contabilidade cravando os olhos nas minhas meias vermelhas e creio, até, que as cumprimentou.
- Boa noite...Como vai...é...senhor...
- Antunes!
E amarelou o sorriso.
Perto da mesa de frios, o meu blazer verde (limão) causou alguns problemas nos olhos de meu chefe, que piscava e os coçava sem parar.
- Antunes, é você?
- Não está me vendo bem, chefe? Conheço um ótimo oftalmologista que pode dar um jeito nisso.
E franziu a testa.
A mais simpática foi a secretária. Quando reparou no kilt que eu estava vestindo, contou toda a sua origem escocesa e disse como se orgulhava de ver alguém como eu propagando a tradição. Na verdade, só ouvi até essa parte. Estava meio preocupado que, com as meias, as fivelas da sandália arrebentassem.
De um em um, todos repararam no velho Antunes, como há muito tempo não faziam. E, para ser sincero, me senti mais jovem e até mais bonito. Não me importei ao ouvir um comentário feito em voz alta:
- O ridículo também chama a atenção.
- Eu não vestiria isso nem aqui, nem na China!
E fui correndo pesquisar o que os chineses costumam vestir.
Para alguns lugares eu não deveria voltar. Apesar da saudade, apesar da nostalgia, apesar das insistentes lembranças.
Aquela casa, aquele jardim, as lesminhas em cima do muro, os passarinhos saltitando no chão, a rede balançando ao vento, a terra batida e arrastada pelos meus pequenos pés, as folhagens que ultrapassavam a minha altura, o bandolim tocando ao longe, o chá quente, o cheiro de pó de arroz. Guardo tudo isso em uma memória sem compartimentos, sem arquivos e sem divisórias.
Assim, misturadas, minhas lembranças resolveram despertar sem motivo. Acordaram no meio da noite, levantaram violentamente do ninho, do cantinho do cérebro que pensava já não funcionar. Lembranças que de repente esperneavam, vivas como nunca. Recordações de finais de tarde dourados, de infância fresca.
Foram essas espevitadas que me fizeram tomar a decisão de voltar àquele lugar. O coração pressentiu o reencontro, pulando lá no seu lugar com pulso forte. As lembranças, então, se agitaram, percorrendo meu cérebro em ritmo de maratona, bagunçando as gavetas e abrindo os armários. Recusavam-se a dormir, me obrigando a buscar o remédio de que tanto precisavam.
Eu voltei. Mas as lembranças se magoaram. Pensaram que iriam se olhar no espelho e se verem coloridas. No presente, porém, apenas tons de sépia refletidos. A casa parecia tão menor! O jardim se fora e, com ele, as lesmas e os pássaros. Para quem foi deixado o bandolim? E ninguém mais havia para passar pó de arroz.
Sem o chá quente, minhas lembranças choraram até dormir.
*Dedicado aos queridos Tio Nelo e Tia Baby (quem teve a sorte de ter tio-bisavô e tia-bisavó?)
Ann Coulter, polêmica escritora conservadora americana, um terror para os liberals, tem uma receita infalível para converter os esquerdistas imaturos: tire-os da casa dos papais, faça-os pagar impostos e prover seu próprio sustento. Em pouco tempo eles terão abandonado as estúpidas idéias "esquerdinhas", assim como quando amadurecemos deixamos à nossa infância as brincadeiras divertidas com os "Comandos em Ação". Confesso que essa analogia é um tanto quanto estúpida, pois os antigos bonecos da Estrela causam saudade, já as idéias "esquerdinhas" (um dia também as tive) só me trazem arrependimento e vergonha.
Já se sabe que faz parte da essência esquerdista mentir, falsificar dados, tentar justificar o injustificável, insultar e caluniar os adversários, simulando sentimentos de indignada afetação quando recebem a resposta que merecem (lembram da tal Cida Diogo, chorando como uma menina remelenta? - boa, Reinaldão!). Mas a esquerda tupiniquim consegue misturar tudo isso com um cinismo e dissimulação que já estão enraizados em nossa cultura. O resultado é um fenômeno que seria divertidíssimo, não fosse trágico ao país. Os esquerdinhas - não consigo mais chamá-los de esquerdistas - sempre acham que terão mais uma chance, que a experiência histórica comunista foi boa; mas quando confrontados com o assombroso número de mais de cem milhões de mortos, dizem que este não é o verdadeiro socialismo...
A esquerda brasileira - para usar uma expressão que já virou um jargão para eles - é tudo isso que está aí. Rebeldes uspianos sem causa destruindo a infra-estrutura da universidade; "gayzistas" que não estão nem um pouco preocupados com o seu direito de dar a quem bem entender, mas em criar um movimento político, dando a uma falsa causa uma natureza de seriedade que os equipara moralmente às grandes religiões; acadêmicos discutindo a beleza da pedofilia, questionando o moralismo exacerbado de uma sociedade que não permite que seus filhos de dez anos de idade ou menos mantenham relações sexuais com barbudões de meia idade; militantes do abortismo defendendo o direito da mulher de "decidir" (o termo correto é assassinar, que fique claro) o bebê que está em seu útero; políticos gritando cada vez mais alto por uma maior intervenção do Estado na vida privada, como se isso já não fosse a causa principal dos males que hoje nos assolam...
A esquerda tupiniquim é personificada tão bem pela nova presidente da UNE (não me perguntem o nome dela. Eu o ignoro). A garota (!!) de 25 anos que diz que "quando crescer" quer se tornar jornalista, mas não para escrever na Veja, claro, esse órgão de imprensa a serviço do Império... Isso é a nossa esquerda: um bando de imaturos, esperando sempre pela oportunidade em que irão salvar o mundo e ouvirão seus nomes aclamados em um congresso do partidão. E o que fazer com aqueles que envelheceram, mas não saltaram um milímetro sequer à direita? Para eles não há consolo. Já disse Winston Churchill - mais ou menos assim: "quem é jovem sem ser esquerdista não tem coração. Aquele que já é velho sem ainda ser um conservador não possui cérebro".
Sempre penso que o esforço de pegar papel e caneta para anotar uma idéia não vale a pena. E, em menos de dez minutos, acabo perdendo algo que, em prática, poderia ser fantástico.
Como sei se poderia ser fantástico se já esqueci? É que aquela sensação de idéia perdida faz isso com a gente. Ah, se tivesse anotado metade dos meus vislumbres... Seriam textos bem construídos, desenhos bem coloridos e obras finalizadas. Motivos de orgulho, satisfação pessoal e até de um pequeno exibicionismo, caso pudesse mostrar os meus feitos para o mundo.
Onde estarão agora essas minhas idéias? Temo por elas. Perdidas, sozinhas, sem rumo...e com raiva de mim. "Por que não nos deu uma chance de nascer"? Sou anti-aborto, mas dei cabo de minhas idéias antes mesmo de fecundá-las. Não tive chance de alimentá-las, vê-las crescer e conhecer seus rostinhos. Fui negligente. Agora, tenho que arcar com as conseqüências de tê-las rejeitado. Agüentar a dor de não ter visto seus primeiros passos e não receber elogios ou críticas por aquilo que coloquei no mundo.
Eu poderia ter concretizado um monte dessas idéias. Agora, elas pairam sobre a minha cabeça mas, por ressentimento, se recusam a voltar. Fazem pouco de mim e riem lá de cima: "Quem mandou nos maltratar"? Eu tento me desculpar, mas para isso seria necessário um reencontro. Como não consigo achá-las, fico apenas na intenção. Elas se vão para sempre e, no fim das contas, quem fica perdida sou eu.
Luz, câmera, ação! O ônibus entrava em movimento e junto com ele os meus pensamentos e atitudes do dia que acabava de começar. Os primeiros devaneios após sentar no banco eram sempre os mais corriqueiros: o tempo, a briga com a namorada, o sapato que queria comprar, o futebol do fim de semana. Eram apenas ensaios. Depois do aquecimento, as cortinas se abriam e o espetáculo começava. O ônibus foi o cenário de muitos dos meus maiores planos.
Foi dentro do coletivo, indo para as minhas últimas aulas na faculdade, que planejei como pediria minha namorada em casamento. Foram dias e mais dias olhando pela janela e visualizando mentalmente cada detalhe. Também foi andando em transporte público que fiz, meio assim por cima, as contas para adquirir o meu primeiro apartamento. E também, por ironia, as contas para comprar meu primeiro carro.
O ônibus também foi o palco de muitas comédias e dramas. Dentro dele, chorei em público pela primeira vez, indo ao velório de um amigo de infância que morrera tão cedo. Foi em movimento também que dei minha primeira gargalhada em alto e bom som, lembrando daquela piada sacana que haviam me contado minutos antes. E, entre lágrimas e risadas, também aprendi a ser caridoso: velhinhos, mulheres e crianças sempre em primeiro lugar.
Foram inúmeras atuações sobre aquelas grandes rodas. Já fui ator principal, coadjuvante e figurante, com performances que foram de brilhantes a ridículas. Passei gripe para muita gente, briguei com cobradores, fiz amizades, torci o pé, ensinei caminho para novos motoristas, derrubei os livros no chão.
Hoje eu tenho família e, por obrigação, um carro de quatro portas. Não vou mentir e dizer que sinto falta de andar de ônibus. Convenhamos, o desconforto e os transtornos de atrasos e de gente pisando no meu pé não compensavam o tempo que eu tinha para planejar ou conversar com desconhecidos. Mas reconheço que, sem isso, não saberia encontrar outros momentos dentro da minha rotina para sentar e pensar, como eu fazia nos milhares de ônibus que já peguei nessa vida.
Claro que, vez ou outra, ainda visito meu palco de outrora. Afinal, carros quebram, o preço da gasolina sobe e o ponto de ônibus é logo ali. E, apesar de serem hoje tão esporádicos, esses passeios despertam em mim os mesmos devaneios e atitudes. A diferença é que, agora, eu já estou perto de ganhar o assento preferencial.
O universo está cheio de estrelas. Centenas, milhares, milhões! Não conhecemos todas elas, poucas têm nomes dos quais lembramos. Mas sabemos que lá estão.
Olhe para o céu e repare. Certamente, você tem condições de lembrar de ao menos algumas pequenas constelações. Afinal, as estrelas mais lembradas têm nome e sobrenome: Paris Hilton (que perdeu muito do seu brilho atrás das grades), Tom Cruise (ultimamente, de uma loucura nada brilhante), Regina Duarte (com dentes ofuscantes) e até a Grazi Massafera (idéia brilhante de entrar para o BBB e resolver a vida!).
Isso nos leva à conclusão de que as desconhecidas não são as estrelas mais longínquas, no final das contas. A constelação mais exuberante é aquela que não está ao nosso alcance. As estrelas do nosso jardim não brilham tanto quanto as do jardim alheio, embora essas minúsculas estrelas muitas vezes acreditem ser muito mais brilhantes que os astros grandiosos, o que na verdade significa que gostariam mesmo é de ser como eles.
É por isso que o céu da sua cidade anda tão congestionado. Com tantas estrelinhas em busca de um brilho mais intenso, você não sabe para qual olhar primeiro. Melhor dizendo, você nem sabe por que deveria mirar essa constelação, se ela alguma coisa tem de artificial e superficial (com perdão da rima). É apenas a cópia do modelo, com a desvantagem de reproduzir as piores características das originais. Porque, falando sério, não há nada pior do que as estrelas locais se considerarem universais...
"Guerra nas estrelas" é pouco! O pequeno empresário, o pequeno jornalista, a pequena socialite, a pequena celebridade. Todos tentando um espaço maior neste céu abarrotado. Todos achando que um dia farão parte daquele outro céu, integrando a constelação de primeira classe, de áreas vips, de champagne com chocolate. E pouco se importando se aquele céu nada tem de nobre, a não ser o status.
Já foi-se o tempo em que as pessoas procuravam o seu lugar ao sol. Que nada, o brilho do sol nos ofusca!