Crônicas e Agudas


Algumas revoltas são revoltantes

Se você não gosta de algo, tem todo o direito de falar. Mas se você milita por algo, tem todo o dever de agir. Então, não vale lutar por uma causa somente em horário comercial.

Eu quero dizer o seguinte: se alguém se auto-intitula anarquista, deveria criar uma comunidade e ir morar no meio do mato. Não adianta bater perna no shopping com o seu all-star, comprar uma blusa com um “a” garrafal e pegar o táxi de volta para casa. Isso não faz de ninguém um anarquista. A pessoa é, na melhor das hipóteses, um capitalista frustrado que, não tendo tudo que gostaria, prefere dizer que não quer nada.

 

Tem também a luta de gêneros que, atualmente, já não serve de nada. Se uma mulher se acha feminista e defende os direitos iguais entre homens e mulheres, não deve pedir ao namorado que abra a porta do carro. Feminista mesmo é aquela que, no mínimo, reveza o dia de abrir a porta. Ser feminista só no salão de beleza é fácil.

 

Digo o mesmo sobre tantos outros, como os defensores de animais que não usam peles, mas após um dia cansativo de trabalho distribuem petelecos no cachorro para ele parar de latir. Ou aqueles que se orgulham de não ter preconceito, mas são a favor de cotas raciais, como se todos não fôssemos da mesma raça: humana.

 

A lista é infinita, porque a hipocrisia também o é. E é justamente por isso que não sou militante. Sou apenas alguém que não gosta de algo e tem o direito de falar.



Escrito por Lorena Suppa às 14h43
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O fundo do poço

O corpo de Viviane era velado pela família e por amigos, na capela do hospital onde recebera os inúteis cuidados médicos. Professora da rede pública, Viviane sempre sonhou com o ensino. Estudiosa, preparava projetos pedagógicos para apresentação em congressos educacionais e para experimentação em sala de aula. Jovem – tinha apenas 23 anos – adorava crianças; por elas Viviane se esgotava todas as manhãs, na difícil missão do aprendizado. Jamais poderia imaginar que um “de seus pequenos” lhe tiraria a vida. Seu algoz era seu próprio aluno, um menino que com apenas 8 anos de vida já era considerado o “terror do bairro”.

 

Bem próximas ao caixão, duas colegas de Viviane, que acumulavam mais anos de experiência que a vítima, comentavam com espanto como teria sido possível chegar ao “atual estado de coisas”. Palpitavam sobre as causas do problema, indagando-se como o “Governo não faz nada para evitar esse tipo de coisa?”. Inconformadas com a idade do assassino, reclamavam como os pais poderiam ter criado “tal monstro”. Elas que sempre se colocaram como defensoras dos direitos dos menores.

 

Diligentes, combinaram de colocar “essa problemática” na próxima reunião da associação dos professores da rede pública, em que poderiam ser propostas “soluções para se evitar a violência em sala de aula”. O fato de o assassinato de Viviane ser mais um entre outras dezenas de milhares de homicídios no país parecia não chamar a atenção das senhoras. O “Governo precisa fazer algo...”, diziam aflitas. Quem sabe não seria, perguntavam-se, uma oportunidade para “se levantar novamente a questão do desarmamento civil”.

 

Antes de sair, despediram-se dos pais de Viviane, que estavam distantes, inconsoláveis. Apertaram a mão da defunta com profundo pesar e se foram. Estavam atrasadas para uma manifestação contra um novo plano de previdência do funcionalismo público proposto pelo Governo.  



Escrito por Lucas Leandro às 00h08
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Aos que nasceram nos anos 80

 

Quando somos adolescentes, tudo é da nossa época. Não temos muitas lembranças para guardar, muitos fatos para recordar ou muitos aprendizados para repassar. No máximo um “quando eu era criança...”, coisa de apenas uns quatro ou cinco anos atrás.

 

Percebemos que começamos a ficar velhos quando isso muda. Eu, pelo menos, constatei esse fato quando disse para o meu primo que ele estava parecendo um smurf com o uniforme todo azul da escola. Ele me olhou espantado: “Smurf? O que é isso”? Lembrei, então, da famosa frase do John Lennon: “Os Beatles são mais famosos que Jesus Cristo”. Pensava que com os Smurfs  era a mesma coisa!

 

Daí pra frente não é mais questão de perceber que se está envelhecendo. É questão de se sentir, de fato, velho. Algumas pessoas não entendem como posso me achar velha com apenas vinte e poucos anos. O negócio é que, conforme você começa a se lembrar de coisas que seu vizinho não se lembra, quando faz uma referência e ninguém entende ou quando começam a lhe pedir conselhos do tipo “o que você faria naquela época?” você compreende que o tempo não passa apenas para os seus pais ou seus avós.

 

Quando você começa a contar histórias ou se espanta porque hoje não se grafa mais “estórias”, quando se dá conta de que nasceu há mais de duas décadas, quando já teve mais de três cortes de cabelos diferentes, você simplesmente sabe que agora não tem volta. Quando você já assistiu a todas as novelas e já não precisa ver o Vale a Pena Ver de Novo ou quando já sabe o que é sentir nostalgia, então você já pode correr para o espelho: um fio de cabelo branco, perdido entre os demais, estará lá para lembrar que nada será como antes.

 

Mas, se você leu tudo isso e, ao chegar ao final do texto, continua a se perguntar quem são os Smurfs...fale comigo daqui uns dez anos! Ou, se você leu esse texto e pensou que parece que foi outro dia que passava Smurfs na TV...siga o meu conselho e vá se olhar no espelho. E, finalmente, se você leu esse texto e acha que é um absurdo colocar Smurfs e John Lennon na mesma frase...me conte como foram os anos 60, assim não me sinto tão velha!



Escrito por Lorena Suppa às 08h10
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Um passeio pela terra quadrada

Fui conhecer Brasília.Sempre me atraiu a possibilidade de conhecer o centro do País, o centro do poder. A visita à capital do Brasil teve, no entanto, um caráter simbólico.

 

Logo na chegada, tive minha câmera roubada; furtada,na verdade, seria o termo correto.Sim, é apenas uma variação constante no Código Penal de nossa terra, mas o sentido é o mesmo. A mensagem de boas-vindas não poderia ser mais fiel a um símbolo da cidade que tem marcado presença nas páginas dos jornais, de revistas e nos telejornais: desonestidade.

 

Quem chega a Brasília percebe, sem dificuldade, um clima estranho. Não me refiro ao ar seco, quente, irrespirável. A pessoa com o mínimo de sensibilidade consegue sentir uma energia estranha, negativa, presente em cada centímetro daquele território quadrado. As sinuosas curvas das obras de Niemayer contrastam com as linhas retas e cansativas dos prédios, avenidas e quadras. O árido clima da terra dos candangos atinge seus habitantes.Trataram-me secamente, sem atenção,sem respeito.

 

Passei pela famosa Esplanada dos Ministérios. Grandes prédios sucedem-se como peças de dominó prontas a cair, mantendo-se erguidas em equilíbrio precário. A mensagem é clara: nós somos o Estado; nós podemos; nós estamos aqui para cuidar de você;nós decidimos o futuro do Brasil. Um dos prédios ministeriais exibe com vergonha as letras de sua denominação: Secretaria Especial de Políticas para Mulheres. Amais pura estupidez brasileira! Como se precisássemos do Governo para definir políticas especiais para as mulheres.Bobagem. Elas são muito mais inteligentes especiais do que qualquer governo.

 

Nos domínios da Câmara dos Deputados, não faltam corredores. Não faltam funcionários públicos caminhando de um lado para outro.Alguns atarefados. Outros, nem tanto.Poucos parecem comprometidos com a função.Outros, nem tanto.

 

Conheci Brasília, mas não gostei do que vi. Começo apensar que talvez o problema do Brasil seja Brasília. Ela parece provocar as idéias mais estúpidas nas cabeças dos políticos que passam por lá. E eu fui embora com uma: acabem com Brasília!



Escrito por Lucas Leandro às 22h32
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Tentativa frustrada de turbinar uma relação

Um belo dia o homem acordou e descobriu que não amava mais sua mulher. Olhou para o lado e pimba! “Não te amo mais”! Ela simplesmente estava diferente. Ou será que era ele? Ele não sabia responder. Conversaram e combinaram: em uma semana, o marido tentaria descobrir porque não gostava mais da esposa, enquanto ela tentaria convencê-lo a ficar ao seu lado.

Durante todo o primeiro dia, ela insistiu que o homem a mirasse nos olhos para que voltasse a amá-la. Ele fez o que foi pedido e olhou bem dentro dos olhos dela. Notou uma certa ausência de vida, que na verdade era falta de lápis, sombra e rímel, conforme ela explicou.

No segundo dia, a mulher pediu que o marido pegasse na mão dela e desse todo o carinho que há anos ele vinha esquecendo. Ele obedeceu, mas olhou as unhas quebradiças e não reconheceu a mão que pegava para passear na pracinha dos velhos tempos. Ela já não passava mais esmalte vermelho.

No terceiro dia, ela quis um cafuné nos cabelos. Infelizmente, OS dedos do marido se emaranharam de uma tal maneira nos fios encaracolados que ela acabou com uma boa dor de cabeça. Ela justificou: tinha cansado de fazer toca, escova e alisamento.

No quarto dia, a mulher pegou o marido de surpresa, abraçando-lhe com força. Ele tentou fazer bonito, queria agarrá-la pela cintura e girá-la, como faziam no início do namoro. Caíram no chão. “Sabe como é”, disse ela, “depois dos filhos o corpo muda”.

No quinto dia, sentindo-se culpado pelo tombo, o homem deu uma incerta no banheiro enquanto a esposa tomava banho, para ver se resolviam as coisas de uma maneira, digamos, mais prática. Porém, a flagrou tirando uns pelinhos do queixo com uma pinça. “Não agüento mais depilar com cera quente, olha como a pele do meu rosto ficou flácida”.

No sexto dia, o marido já estava mais do que amargurado. Veja bem, ele pensava que poderia estar passando apenas por uma crise de meia idade. Mas começou a perceber que a mudança não era com ele. Algo estava acontecendo com sua mulher e, de fato, ele já não a reconhecia. Mesmo assim, como seu prazo estava curto e ela esperava uma resposta, decidiu fazer a última tentativa. Afinal, Deus só descansou no sétimo dia!

Um jantar à luz de velas foi sua última cartada. Quem sabe com um clima romântico ele resolveria sua cabeça. Porém, ela chegou do trabalho, olhou várias e alternadas vezes para ele e para as velas, encheu OS pulmões e...desfez-se a luz! Pela cara dela, o marido deduziu: “Meu bem, está com cólicas menstruais”? Ao que lhe veio em tom de repreensão: “Não, calor de menopausa”! As velas não surtiram o efeito esperado.

No sétimo dia, o homem fez as malas. “Querida, eu sou como um carro. E um carro que se preze precisa de acessórios. Você não me oferece mais nada: nem unhas pintadas, nem cabelos bem feitos, nem mesmo um útero jovem”. Aproveitando a ocasião, a mulher, já cansada de todos os esforços, o enxotou porta afora: “De que servem os acessórios se o carro não funciona”?
 

 



Escrito por Lorena Suppa às 18h12
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A militante

Joana, militante do partido, acordou feliz. Não era um dia comum. Era dia de eleição. Assim como o católico vai à missa para renovar sua fé, Joana renovava seu voto no partido de quatro em quatro anos.
Tomou a camisa velha, cuja estampa era o símbolo do partido. O logotipo desbotara, assim como a imagem partidária. Todo o simbolismo ético que o envolvia, agora era identificado à pilhagem, à corrupção, ao clientelismo. Com efeito, perdera o discurso moralista que proferia com falso orgulho.

Mas Joana não se apegava a tais fatos. Sua vida não mudara nada nos últimos anos. Seu salário permanecia estagnado, mal dava para pagar as contas ao final do mês. O pai ainda buscava o emprego perdido anos atrás. Mesmo assim, sua fé nos ideais do partido permanecia inabalável. Agia como que sem questionamentos conscientes. O que lhe importava era o que dizia o coração. Joana não tinha dúvidas de que o partido era inocente, vítima de uma campanha suja e covarde das elites conservadoras.

A militante seguiu o caminho das ruas. O mastro da bandeira, pesado, repousava sobre o ombro. Joana caminhava a passos lentos. Sua postura formava, como um todo, a expressão de uma figura arrogante. Ela não se via assim. Na verdade, não tinha vergonha alguma de militar no dia mais importante da vida do partido, exibindo com orgulho a estrela-símbolo, que para Joana continuava reluzente como sempre.

O dia chegou ao fim. A mensagem das urnas era insofismável. Os números divulgados pela imprensa não deixavam dúvidas quanto à derrota incontestável do partido. Joana não acreditou. Não podia se conformar com a ingratidão do povo, que anos atrás levara com votação expressiva o partido ao poder, e agora o tirava de lá com a mesma força.

Uma lágrima correu pelo rosto da militante, que tomou decidida o caminho de casa. Não havia mais nada a fazer. No dia seguinte, Joana teria que sair às ruas novamente. Continuaria sua árdua luta pela sobrevivência.



Escrito por Lucas às 14h38
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O último adeus

O chamado do telefone às 3 da manhã assustou Alessandro. Não esperava ligações, tampouco àquela hora. Do outro lado, a mensagem inesperada: sua avó, uma senhora simpática, alegre, que sempre amou a vida e se orgulhava dos netos mais do que tudo no mundo, havia falecido. Já estava há alguns dias no hospital. Os médicos não haviam dado esperanças aos parentes. O momento da despedida de dona Aurora com a grande família que formou chegara finalmente.

 

Alessandro, consolado, tomou o primeiro ônibus da estação rodoviária com destino a São Miguel dos Anjos, a cidade de que se lembrava com doída saudade, dos tempos doces de criança, em que a avó era uma figura presente e constante. O rapaz não estava triste com a morte de sua avó, afinal ela vivera um bocado de tempo e legou aos filhos e netos uma mensagem de força e de perserverança, das quais jamais poderiam se envergonhar. Alessandro só se ressentia do fato de que não falava com sua avó há três anos, afinal, os negócios e os compromissos sociais adiavam sempre o retorno ao cenário de sua infância.

 

Se tivesse um minuto, alguns preciosos momentos em que pudesse expressar o sentimento de gratidão e amor que nutria pela velha Aurora... Mas o tempo, infalível e inexorável, já se passara. Alessandro retornaria à terra natal e veria pela última vez a avó querida. O derradeiro momento em que seria possível dar um beijo no rosto da velhinha querida, mesmo que ela não pudesse lhe responder, nem abrir aquele sorriso materno e bondoso, que só os netos reconhecem nos avós.

 



Escrito por Lucas às 21h53
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Da infância

De boca de mãe sai cada coisa engraçada! Na sabedoria dos meus 8 anos, com pose de Casimiro de Abreu, eu filosofava debaixo dos laranjais as palavras da minha mãe...

“Nunca fale com estranhos”! Eu jamais falei com aquele cara de vespa da padaria, cara esquisito mesmo, mas sempre vinha a bronca quando eu sorria para uma moça na rua. Para mim, as moças eram até bem simpáticas, mas mamãe as devia achar pouco formosas. Um padeiro com cara de vespa...aquilo sim era muito estranho!

Da boca da minha mãe saía mesmo coisa engraçada. Quando eu tinha soluço ela lá de dentro gritava pra alguém me dar um susto...De tanto susto que eu levava, eu soluçava de chorar. E quando ela me disse que meninos não choram, eu concluí muito rapidamente que as hienas, que só riam, eram meninos obedientes.

De boca de mãe...quanta coisa engraçada! Plantei feijão achando que ia nascer bebê da sementinha, achei que todos os vesgos eram assim por causa do vento, não fiquei até tarde na rua achando que o homem do saco ia me pegar, que saco!

Da boca da minha mãe, que engraçado, as mais certas previsões! “Anda descalço que o resfriado vai te pegar”! E eu corria e corria dele, mas ele sempre me pegava quando eu não estava olhando.

Da boca...bem, você sabe como é engraçado. Minha mãe que dizia: “Que mania de achar engraçado"!

Deve ser doença crônica!



Escrito por Lorena Suppa às 19h50
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