
ORAÇÃO À ALMA
Tira de dentro a discórdia que o homem plantou. Arranca o que ele criou e em mim semeou. Não quero saber vingada mais nenhuma semente desse quinhão. Essa cor vermelha só se for do meu sangue imaculado. Deixa longe de mim o rubro das baixas profundezas, larga a chama trépida e a forquilha cínica. Penetra em mim um espírito anil resplandescente e embebe os que me seguem. Ilumina a mais íntima percepção e faz hoje o que não fiz por mim nunca. Deixa de lado a desonra e o injúrio. Viola apenas os limites da boa fortuna. Eleva a mente, que o espírito é puro. Sê menos palavras e mais sentimentos. Olha para dentro e chora para fora. Sublima com as lágrimas e abranda com um sorriso. Aceita a temperança, o perdão e esta oração. Que eu não quero ser Ele, mas sim para Ele.
Estréias, que pena, são únicas.
Como o primeiro choro.
O primeiro passo.
O primeiro beijo.
A primeira dança.
O primeiro amor.
O primeiro filho.
Quem dera eu estreasse todos os dias.
Como se todos os nasceres do sol fossem os primeiros.
Como se todos os fins de tarde fossem únicos.
Como se a lua crescesse sempre nova, toda cheia e nunca minguasse.
Como se houvesse sempre a primeira estrela para o primeiro pedido.
Como se a música do seu "eu te amo" fosse sempre uma surpresa.
Como se andar fosse um exercício consciente.
Como se existisse sempre o primeiro gole mas nunca a gota d'água.
Como se toda onda tivesse um primeiro pulo.
Como se, eternamente, eu afundasse e emergisse nesse oceano que é a vida.
Relembrando o útero e a minha primeira estréia.